Relatório da ONU avisa sobre o perigo de favelização das cidades africanas

Com uma população de mais de 1 bilhão o relatório fala de “oceanos de pobreza, as ilhas de riqueza” na África

Lagos, a capital da Nigéria deve ultrapassar o Cairo como a maior área urbana da África até 2015

John Vidal, editor de meio ambiente, The Guardian

A África se juntou à China e a Índia como a terceira região do mundo a alcançar uma população de 1 bilhão de pessoas e a expectativa é que esse número dobre até de 2050. Até lá, haverá três vezes mais pessoas vivendo nas cidades de africanas e o continente que tinham menos de 500 milhões de habitantes urbanos em 1950, pode passar a ter 1,3 bilhões até 2050.

A transformação vertiginosa de uma população rural para uma predominantemente urbana, não pode ser visto como um fenômeno bom ou ruim como diz a agência de Nairóbi da UN-Habitat, que monitora o meio ambiente construído no mundo. Em um relatório, a agência pediu que os países africanos planejassem melhor suas cidades, para evitar as megafavelas e as vastas áreas de privação de desenvolvimento humano em todo o continente. “O padrão é … oceanos de pobreza com ilhas de riqueza. Atualmente, as condições de vida nas cidades africanas são as mais desiguais do mundo. Eles já estão cheias com favelas e uma população três vezes maior pode significar um desastre, a menos que medidas urgentes sejam iniciadas hoje. Esta situação ameaça a estabilidade e, também, nações inteiras”, disse.

Cairo é hoje a maior área urbana da África, com 11 milhões de pessoas, mas a ONU disse que em 2015 será ultrapassado por Lagos, com cerca de 12,4 milhões de habitantes. Em 2020, Kinshasa, a capital do Congo é prevista para ser a segunda maior cidade do continente e Luanda, a quarta maior, com projeções de crescimento de mais de 8 milhões em 2040.

A velocidade de crescimento de algumas cidades desafia a credibilidade, diz o relatório. A população do continente africano deve crescer mais de 500 milhões nos próximos 17 anos, e outros 500 milhões até 2050. Até lá mais de 60% da população viverá em cidades. A população de Uagadugu, a capital do Burkina Faso, é prevista para aumentar mais de 80%, passando de 1,9 milhões em 2010 para 3,4 milhões em 2020. A população de praticamente todas as cidades subsaariana com mais de um milhão de pessoas é prevista crescer em média de 32% nos próximos 10 anos.

“Kinshasa é a cidade que irá crescer mais em termos absolutos, com um acrésimo de mais de 4 milhões de pessoas, ou seja, um aumento de 46% em relação a sua população de 8,7 milhões em 2010. Lagos é a segunda a crescer mais rápido, com uma previsão de 3,5 milhões de pessoas a mais, o que equivale a um aumento de 33,8%. Abuja, Bamaco, Luanda, Lubumbashi e Nairóbi devem todas crescer entre 47% e 50% na próxima década, enquanto Dar es Salaam, Campala, Mbuji-Mayi e Niamey são previstas a crescer entre 50% e 57%.”

O relatório diz fornecer comida e água para um bilhão de pessoas a mais no continente até 2050 vai ser um grande desfio, principalmente porque a África deve ser duramente atingida pelas mudanças climáticas.

A ONU pediu que os governos dificultassem acordos com países estrangeiros dispostos a comprar terras e água. “Os governos devem prestar muita atenção aos sinais de advertência de 2008 e considerar seriamente os efeitos potenciais de escassez de alimentos e de água em áreas urbanas no futuro.” Quantidades expressivas de terra e água estão sendo compradas na África por governos e empresas estrangeiras de processamento de alimentos. Algumas até trazem trabalhadores agrícolas para a África. “Os governos devem negociar com mais firmeza para fechar contratos melhores que contribuam para a segurança alimentar e de água para África.”

Os autores sugeriram que os governos transfiram grande parte dos seus negócios administrativos para fora das capitais. “Eles deveriam considerar transferir para cidades secundárias todos os departamentos e agências governamentais que não têm necessidade para estarem localizados na capital. A mudança poderá também relocar a atividade económica, aliviar os congestionamentos e as pressões sobre o solo urbano.”

O relatório mostrou que muitos países lutam para reverter a favelização de suas cidades. Egito, Líbia, Marrocos reduziram quase pela metade o número total de moradores em favelas urbanas e a Tunísia conseguiu erradicar totalmente as favelas. Gana, Senegal e Uganda têm conseguido reduzir as populações pobres da periferia urbana em mais de 20%. Mais de 75% da população da Nigéria viviam em favelas em 1990, hoje somente 61,9% vivem em favelas. Na África do Sul, o número de moradores de favelas foi reduzido de 46,2% para 28,7% entre 1990 e 2010.

No entanto, o número de pessoas vivendo em condições de favelas tem crescido em muitos casos devido ao crescimento populacional. “Como é o continente com um processo de urbanização mais rápido do mundo, a África tem dois desafios: o de melhorar a vida dos moradores de favelas e evitar a formação de novas favelas”, disse Joan Clos, diretora executiva do UN-Habitat. “Isso vai depender de vontade política e de recursos financeiros. Acima de tudo, será necessário um compromisso com o planejamento estratégico urbano para que as necessidades dos pobres sejam atingidas.”

http://www.guardian.co.uk/world/2010/nov/24/africa-billion-population-un-report

Consulte também os dados na página da UNHabitat:

http://www.unhabitat.org/content.asp?cid=9141&catid=7&typeid=46&subMenuId=0&AllContent=1

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