Áreas de proteção não garantem a sobrevivência da Mata Atlântica

Isoladas, essas porções perdem variedade genética e ficam vulneráveis. Solução está nos corredores ecológicos

De maneira lenta e agonizante, a Mata Atlântica, que já chegou a cobrir 15% do território brasileiro, sucumbe à ação do homem. Segundo pesquisa da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), a diversidade biológica da floresta avistada por Cabral quando o Brasil foi descoberto corre o risco de desaparecer, mesmo nas áreas protegidas por lei. As mais de 700 reservas que guardam os 7% restantes do bioma estão perdendo densidade e variedade de espécies. A causa é o isolamento. Distantes umas das outras, as reservas não conseguem trocar sua biodiversidade, o que deixa plantas e animais vulneráveis.

As análises feitas pelos pesquisadores mostraram que, nessas áreas, apenas entre 3% e 4% dos exemplares de árvores surgiram de pólen vindo de regiões distantes, fora das estações ecológicas em que estão localizados. O ideal para preservar a saúde da floresta é que a taxa seja de 10%. O isolamento aumenta os cruzamentos entre árvores e animais semelhantes, deixando as novas gerações pobres geneticamente e mais suscetíveis a pragas e doenças. “Existe uma incapacidade da sociedade em valorizar as florestas. Como os dedos de uma mão são igualmente importantes, todas as espécies têm um valor inestimável, nenhuma delas está aí por acaso”, alerta o pesquisador Mário Luiz Teixeira de Moraes, do câmpus de Ilha Solteira da Unesp.

O trabalho de Moraes consiste justamente em tentar aumentar o intercâmbio de biodiversidade entre as diversas áreas preservadas de floresta no interior de São Paulo. Além de manter pesquisas para aferir como os cruzamentos entre gerações de árvores ocorrem, ele promove a reprodução de árvores isoladas. “Realizo o que considero o papel primordial das instituições públicas, que é a conservação dos recursos genéticos”, afirma. “A conservação dos recursos genéticos deveria ser uma estratégia de guerra de um país continental ,como é o caso do Brasil. Mas infelizmente não é”, completa.

Efeito estufa
Com a situação, o homem também perde. Segundo um estudo do Instituto de Pesquisas em Meio Ambiente Hellmholtz , na Alemanha, publicado ano passado na revista científica Ecological Modelling, florestas fragmentadas têm menor densidade e, consequentemente, capturam menos gás carbônico. Ou seja, o processo ajuda a aumentar o efeito estufa.

A pesquisa avaliou a produção de biomassa para cada hectare de terra em reservas de diversos tamanhos. Enquanto, na mata virgem, cada hectare de mata produz 250t de biomassa, nas reservas de proteção de 1 milhão de metros quadrados, esse índice cai para 228t. Em áreas protegidas menores, de 10 mil metros quadrados, esse valor despenca ainda mais, chegando a 140t. Uma redução de quase 40% na capacidade de sequestro de carbono. “É um erro pensar na perda da floresta somente considerando a redução de sua área total. Devemos considerar a configuração espacial das áreas florestais restantes”, explica ao Correio o pesquisador alemão Jürgen Groeneveld, um dos líderes do estudo, feito em parceria com a Universidade de São Paulo (USP).

A explicação para o problema é a relação conflituosa que as florestas têm com seus arredores. As áreas consideradas de borda, em que a mata entra em contato com áreas não preservadas, pouco a pouco tornam-se mais frágeis. “Situações como condições dos ventos e a alteração do clima e da radiação conduzem a uma modificação geral do microclima nas bordas da floresta. Esses são fatores que prejudicam especialmente as árvores maiores e velhas”, completa Sandro Puetz, que também participou do estudo. Os vegetais mais antigos guardam a maior parte da biomassa.

Uma das saídas defendidas pelos especialistas é a conexão das pequenas reservas com áreas de preservação maiores, diminuindo as regiões de borda. “Uma das possibilidades seria conectar os fragmentos pequenos de floresta entre si, formando uma área grande”, opina Puetz. Apesar de simples, a solução esbarra na dificuldade de se criarem mais reservas, já que a Mata Atlântica está em algumas das regiões mais urbanizadas do país. A ação, no entanto, pede rapidez. “Os fragmentos remanescentes já estão bastante degradados. Já perdemos muita biodiversidade”, lamenta o pesquisador.

A ligação entre os diversos fragmentos pode ocorrer com a adoção dos chamados trampolins e corredores ecológicos. Segundo os pesquisadores, isso possibilitaria o intercâmbio entre exemplares das espécies atualmente isoladas. Os animais poderiam transitar entre as diferentes florestas e as plantas usariam o vento, as águas e os bichos para migrarem entre as reservas, de forma a promover a diversidade genética e fortalecendo o bioma.

Legislação
O primeiro código florestal brasileiro, promulgado em 1935, e sua versão atual, elaborada em 1965, preveem a manutenção dessas estruturas para garantir o intercâmbio de espécies. O tema também é abordado na nova proposta de código em discussão no Congresso Nacional. “Há mais de 80 anos, a legislação brasileira reconhece a importância dos corredores. O problema não é científico nem legal. O que falta é uma cultura que valorize a preservação das florestas”, acredita Eleazar Volpato, professor de política florestal da Universidade de Brasília (UnB).

Para ele, as mudanças e as revisões nas legislações não são suficientes para que os corredores ecológicos se tornem realidade. “Apenas cerca de 10% da população brasileira vive na zona rural. Os outros 90%, que vivem nas cidades, cobram dessa minoria a preservação ambiental. A legislação só valerá quando as políticas de preservação distribuírem entre toda a sociedade os ônus da preservação”, opina.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), os corredores não são estruturas obrigatórias em todas as áreas de proteção e argumenta que sua implantação depende de estudos que confirmem a necessidade. “Nos últimos 10 anos, o Brasil criou dois terços de todas as reservas ambientais surgidas no mundo. Por serem relativamente novas, a maioria das reservas ainda não tiveram esses estudos efetuados”, diz Fábio França, diretor de Áreas Protegidas da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do MMA. “No entanto, em meados de 2012, deve ficar pronto o primeiro projeto de implantação de corredor ecológico, no norte do Espírito Santo e no sul da Bahia”, informa.

Outras iniciativas estão em andamento. Nos próximos dois anos, deve ser finalizada a implantação de quatro corredores ecológicos em áreas do Sudeste, do Sul e do Nordeste. “No entanto, mais que demarcar essas áreas e garantir que elas estejam contempladas no próximo código florestal, é preciso planejar e executar projetos para maximizar o potencial de conectividade, fazendo com que os corredores efetivamente funcionem”, completa o coordenador do Laboratório de Ecologia da Paisagem da organização ambiental WWF, Sidney Rodrigues.

Leia em:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2011/03/24/interna_ciencia_saude,244298/areas-de-protecao-nao-garantem-a-sobrevivencia-da-mata-atlantica.shtml

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Uma resposta para Áreas de proteção não garantem a sobrevivência da Mata Atlântica

  1. victoria disse:

    oi adorei saber sobre a mata atlantica

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