O preço do desenvolvimento do delta do rio Tana no Quênia

 

 

Projetos agrícolas previstos para delta do rio Tana no Quênia poderão trazer prosperidade para a região, mas será que o governo está preocupando com a população da região.

 

Bill Law, BBC News

As coisas não começam bem com Maulani Diwayu. “Eu não sabia se você vinha ou não, de qualquer modo você está atrasado”, ele me diz abruptamente.

Estamos os dois em pé em um cruzamento na estrada B8 no leste do Quênia. Eu tinha chegada pela manhã à Malindi, cidade no Quênia às margens do Oceano Índico. Em seguida, fui conduzido para o norte e depois para o interior para me encontrar com Diwayu.

“Vamos logo”, diz ele descartando a minha tentativa de me explicar. “Há muita coisa que você precisa ver.” E, assim, entramos no veículo 4 x 4: eu, Diwayu e o nosso motorista.

Os quenianos preferem ser chamados pelo sobrenome e Diwayu não é uma exceção. Ele é um sujeito magro com um olhar intenso, às vezes zangado. Ele usa um boné de beisebol surrado com uma inclinação desafiadora.

Terra seca e devastada

A estrada vai ficando mais esburacada à medida que nos aproximamos do delta do rio, uma área de 1.300 quilômetros quadrados de terra fértil onde agricultores de subsistência, pescadores e pastores de gado e cabras habitam.

Vamos sacolejando pela estrada, eu tentando manter um diálogo, e o Diwayu respondendo em monotongos. “Pare aqui”, diz ao motorista. “Saia do carro”, diz para mim.

Eu gosto de saber para onde estou indo e não gosto quando estranhos ficam me dando ordens. A esse ponto, não estou gostando muito do Diwayu. Então, começo a passar repelente de mosquitos sem me apressar.

Diwayu está no topo de um barranco ao lado da estrada de terra e começa a falar. Ele aponta para um canal estreito e vazio de concreto construído na década de 1990 para irrigar um projeto de cultivo de arroz numa grande área do delta. O projeto falhou.

E então, a minha frente, ele aponta para o que parecem ser arbustos desérticos.

“Isso tudo já foi um pantanal”, ele me diz, mostrando uma extensão de terra que vai até onde os olhos podem enxergar. Agora parece uma terra devastada.

O canal e o dique bloquearam a água do rio e destruiu o pantanal, ele me disse. Eu começo a entender a raiva e a urgência de Diwayu.

Medo de despejo

O delta do Tana está sendo preparado para grandes empreendimentos agrícolas, inclusive uma grande plantação de açúcar. Há conversas de que vão plantar mamona para produzir biocombustíveis em uma área de 900 quilômetros quadrados. Pouco antes do Natal, foi anunciado um acordo que irá permitir que o Qatar cultive alimentos para exportação. Dizem que o negócio envolve uma área de mais de 400 quilômetros quadrados.

Diwayu trabalhava para uma organização do governo que deveria combinar o desenvolvimento da agricultura com a participação da comunidade. No entanto, ele nasceu e cresceu na região do delta sem ter visto o governo fazer muita coisa para o povo. Portanto, ele desistiu e agora trabalha com o grupo ambiental chamado Nature Quênia.

Retornamos ao veículo 4 x 4 e fico admirado como Diwayu facilmente nos guia por estradas que viram trilhas e trilhas que desaparecem.

Ele me leva até uma aldeia chamada Wema, até os agricultores de subsistência que pelejam para plantar milho, até os pastores na aldeia de Gamba, até os pescadores no Didenaride e todos me contam a mesma história. Eles estão com um medo danado de serem despejados para dar lugar aos grandes projetos agrícolas que estão chegando ao delta. Os mais velhos dizem: “Nós achamos que o governo não está nos ouvindo”.

Vila Hipopótamo

Diwayu está determinado que eu veja o máximo possível do delta. Ele me manda alugar um barco de fundo chato com um pequeno motor para nos levar rio acima para ver algumas das áreas alagadas remanescentes.

As águas do Tana são ricas em lama avermelhada. Crocodilos mergulham no rio à medida que nós passamos. Aves de extraordinária variedade se lançam ao céu quente e azul da África.

“Eu quero te mostrar a vila hipopótamo”, Diwayu grita para superar o barulho do motor. Logo em seguida, viramos a curva do rio e lá diante dos meus olhos está um bando de hipopótamos, uns 50 a 60 deles. Eles estão reunidos chapinhando alegremente, graciosamente, o sol batendo em suas costas molhadas.

Diwayu proteje seus olhos do sol enquanto ele olha para os hipopótamos. “Para onde irão os hipopótamos se os pântanos secarem? Toda essa biodiversidade está ameaçada. Estamos angustiados”, diz ele. Eu posso perceber a dor em sua voz. Ele me diz que o que ele mais queria era ver o delta voltar a ser o que era antes.

Essa, porém, é a tragédia do Diwayu e das pessoas que vivem aqui. Não há retorno, não há caminho de volta.

As pessoas aqui são extremamente pobres. Eles precisam de infraestrutura, emprego, tecnologia e orientação de como plantar suas lavouras. Os grandes projetos de agrícultura têm potencial para trazer esses avanços. O tipo certo de projeto de desenvolvimento faria uma enorme diferença para as comunidades daqui.

Mas o governo e as grandes empresas avançam de forma inflexível, e não parecem estar ouvindo ninguem. E, ultimamente, a destruição ambiental do delta do rio Tana pode ser uma tragédia ainda maior que a pobreza existente na região.

 http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/from_our_own_correspondent/8496762.stm

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