A fome e a carestia acendem a rebeldia no mundo

 Por Gustavo Capdevila, da IPS

Genebra, Suíça, 1/2/2011 – O aumento no preço dos alimentos que leva à fome, uma das causas das revoltas populares na Tunísia, no Egito e outros países, se deve à especulação financeira e não à falta de terras para cultivar, disse Janaina Stronzake, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A carestia dos artigos de primeira necessidade e a fome são usadas como armas que acabam obrigando as populações a assumirem determinadas condutas, disse Janaina, que além de integrar a coordenação nacional do MST representa a Via Camponesa, uma articulação mundial de movimentos de trabalhadores rurais.

A ativista brasileira falou sobre o papel dos camponeses em momentos de crise alimentar em conversa com a IPS, em um intervalo de sua participação no encontro organizado pela Federação Genebrina de Cooperação, nos dias 29 e 30, nesta cidade da Suíça

IPS: A que atribui esta comoção pelos preços dos alimentos?

JANAINA STRONZAKE: A questão dos preços e da escassez de alimentos, ou da fome, sempre é uma questão complexa, com causas múltiplas e uma série de fatores que têm influência. Atribuir, com se faz, o aumento de preços dos alimentos ao fato de populações da China e da Índia agora estarem se alimentando me parece muito simplista. É como dizer: bem, se estamos pagando mais é culpa de indianos e chineses. E isto não é verdade.

IPS: Faltam alimentos no mundo?

JS: Temos capacidade no mundo para produzir alimentos, e de qualidade, suficiente para todas as pessoas, sem recorrer a tecnologias duvidosas, como são os transgênicos. No Brasil, temos 120 milhões de hectares sem cultivar. Ou seja, para produzir mais não é preciso tirar terra da Amazônia, desequilibrar o meio ambiente nem acabar com as florestas. Só é preciso fazer uma reforma agrária decente, adequada, que assegure condições para que camponeses e camponesas continuem produzindo.

IPS: Então, qual a causa disto tudo?

JS: Um dos fatores fundamentais para o aumento de preços é a especulação financeira, com os alimentos sendo considerados mercadorias e negociados nas bolsas dos mercados e futuros.

IPS: A quem a especulação beneficia?

JS: As multinacionais tiram partido disto, jogam e especulam com a fome das pessoas e obtêm lucro. Para demonstrar issto, basta comparar entre os anos de queda dos preços dos alimentos e os gráficos de lucro das grandes empresas transnacionais. Por exemplo, entre 2004 e 2008, assistimos a uma série de choques, distúrbios, populações atacando supermercados em busca de alimentos e, ao mesmo tempo, alta nos preços da comida. Nesse período, os lucros da Syngenta, que é uma das maiores empresas do setor agrícola mundial, saltaram de US$ 6 bilhões para US$ 11 bilhões. Então, enquanto a fome castiga as populações, as companhias multinacionais embolsam os lucros.

IPS: Como se evidenciam as políticas dessas empresas?

JS: Pela forma como querem estruturar a agricultura, tirando capacidade de produção das pessoas por meio do controle da água, de sementes e da propriedade intelectual dos produtos, além de obter as melhores terras. Também a partir do controle do mercado. Hoje são dez empresas que dominam quase todo o mercado de soja, milho e cana-de-açúcar.

IPS: Como reage o movimento camponês diante dos aumentos de preços dos alimentos?

JS: Com muita preocupação, porque respondem a todo um sistema integrado. O pensador Zygmunt Bauman, de origem polonesa, fala, por exemplo, dos desperdícios humanos. Diz que é como se as pessoas sobrassem no mundo e é preciso fazer algo com elas. Uma forma é morrerem de fome, pois não há trabalho para todos. Com as novas tecnologias de produção, já não são necessários tantos braços para trabalhar. Então, este excesso de população deve desaparecer. Não porque não possam se alimentar, mas porque dentro do sistema capitalista não geram nem consomem. Portanto, tendem a desaparecer. E um caminho é este, morrerem de fome com este tipo de crise.

IPS: E há outras formas?

JS: Outro caminho é o negócio das prisões, a privatização do sistema penitenciário. Em momento de crise aguda, as pessoas tendem à criminalidade para sua sobrevivência. Daí surgem os roubos e todo tipo de crime, e depois as prisões são privatizadas e se convertem em um negócio rentável. As empresas recebem bônus dos Estados para instalá-las, administrá-las e obter lucro com o trabalho dos presidiários. Isto lembra muito os campos de concentração da Alemanha nazista. Este sistema está esparramado pelo mundo. No Brasil, alguns governos estaduais de direita começam a ensaiar como fazer o processo de privatização de prisões.

IPS: Aí terminam os métodos de extermínio?

JS: Não, a questão das guerras também está associada. Como é possível continuar mantendo guerras, como na República Democrática do Congo, sem uma situação de fome que obrigue as pessoas a se deslocarem e atuar como soldados mercenários. Nesses casos se vê como a fome e os altos preços dos alimentos são usados como armas que obrigam as populações a assumirem condutas determinadas. A isso devemos somar outras formas criminosas, como o tráfico de armas, de drogas, de mulheres e de órgãos humanos. Todos interligados com um mesmo sistema que gera benefícios a poucas empresas.

IPS: Que opinião tem dos tratados de comércio internacional que incluem produtos alimentares?

JS: A Via Camponesa reivindica que alimentos não façam parte dos acordos promovidos pela Organização Mundial do Comércio. Não podem ser considerados uma simples mercadoria. Toda a humanidade precisa de comida e devemos garantir um mínimo para todos, independente de suas condições econômicas. E isso não passa apenas por políticas assistencialistas, como, por exemplo, do fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Passa pela necessidade de dar poder às pessoas a partir de sua própria comunidade para garantir e produzir alimentos. Esta é a soberania alimentar.

IPS: O que espera das negociações da Rodada de Doha promovida pela OMC, com um capítulo dedicado à reforma do comércio agrícola mundial?

JS: Essas negociações não nos incluem. Nos consideram simplesmente uma tendência ao desaparecimento dos camponeses e das camponesas. Mas, a questão é que esse desaparecimento representa o risco de falta de alimentos, porque o agronegócio, as grandes empresas, os que discutem a Rodada de Doha, podem garantir apenas por um período uma quantidade de alimentos, mas sua preocupação é apenas em torno seu próprio lucro. Envolverde/IPS

(IPS/Envolverde)

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=86234&edt=1

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